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A REVOLTA DOS LIVROS
Anne-Christine Dussart*
Antônio empurra a porta e entra em casa como se fosse um pé-de-vento. Joga a pasta do colégio no tapete, o casaco em cima da poltrona, o boné no chão ... e, pimba, liga imediatamente o botão da televisão.
"Ufa! Um pouco de barulho, que bom ..."
Agora, Antônio fica pensando no que vai fazer: é a tarde de quarta-feira e ele tem tempo de sobra.
Primeiro, vai comer o sanduíche que mamãe deixou na geladeira.
Com a outra mão, o garoto pega o controle remoto e vai apertando depressa para ver que programas estão passando na televisão.
- Nada de muito interessante hoje. Bom, então, direto para o computador!
Antônio dispara para o quarto, passa por cima dos brinquedos espalhados pelo chão e senta na frente do teclado do computador.
- Qual é o jogo que eu vou jogar primeiro? Ah, este aqui, pronto, é só colocar o disquete no lugar ...
Logo se ouve o tit-tit-tit de sempre seguido da musiquinha de abertura do jogo que o nosso amigo conhece de cor.
Antônio não está sozinho. Atrás dele, dezenas de livros dormem quietinhos na estante. Há livros de todos os tipos: grossos, finos, grandes, pequenos, livros coloridos com figuras, outros só com histórias, todos os que ele ganhou de presente nos últimos anos em festas e aniversários.
Quando ganhou os livros, Antônio alisou, cheirou e revirou de um lado para o outro cada um deles. Folheou todos rapidamente, parando para ver as ilustrações. Depois, a mãe mandou fazer no quarto de seu filho uma pequena estante de madeira escura com cheiro bom de cera, onde os livros foram colocados. E agora eles dormem ali, tristes porque nunca são tirados do lugar, desanimados porque nunca são abertos e desesperados por nunca serem lidos. Mas um dia um livro começa a reclamar: é Robinson Crusoé.
- Ei, vocês aí, acordem! - começa ele, sacudindo-se para os lados e empurrando os outros. - Mexam-se um pouco! Parece até que estou na minha ilha deserta! Vocês não estão vendo que o nosso Antônio nem quer saber de nós? Só pensa naqueles seus dois "monstros de botões" e fica pregado diante deles o tempo todo. Isso tem de acabar! Temos de reagir! - diz ele, sacolejando-se mais ainda.
- Hein? - geme o livro Contos de Fadas. - O que está acontecendo? Então este quarto não é o castelo da Bela Adormecida? Pensei que tinha de dormir cem anos!
- Que dormir o quê! Nós não fomos feitos para isso! - resmunga Vinte Mil Léguas Submarinas. - Fomos feitos para contar histórias maravilhosas, para ensinar coisas novas e distrair as crianças. Olhem aí quem são os nossos inimigos: os "monstros de botões". Vejam só o primeiro, aquele ali em cima do móvel preto, todo prosa. O Antônio não tira os olhos dele. Na sua tela há uma porção de personagens ameaçadores que se agitam o tempo todo e acabam morrendo que nem moscas. Bangue! Bingue! Antônio acha que eles são mais divertidos do que nós.
- Você tem razão - suspira Contos de Fadas. - E o segundo "monstro dos botões está bem aí na nossa frente. Não sei que graça Antônio acha nele: só sabe dizer rat-tá-tá-tá-tá o dia inteiro. É de desesperar qualquer um.
Foi então que o livro Robinson Crusoé teve uma idéia genial:
- Só há uma solução. Vamos declarar guerra a eles - propõe. - Deve haver um meio de derrotar esses dois monstregos horrorosos. Dessa maneira, Antônio não vai ter o que fazer e vai acabar nos procurando.
- De fato - fala uma voz bem grossa o Dicionário Ilustrado. - É uma idéia excelente.
- É, mas como?
Todos coçam o alto das páginas, perplexos. Afinal, ouve-se uma vozinha fina dizer, tímida:
- Eu sou A Pequena Sereia, mas aqui a meu lado tenho um companheiro que talvez saiba o que podemos fazer. Já vi suas páginas abertas um dia, quando ele caiu no chão. Dentro dele tem umas fotografias dos "monstros dos botões".
O livro Mistérios da Eletricidade, que estava cochilando, acorda.
- Eu não "caí no chão" coisa nenhuma - resmunga ele, com ar ofendido. - Antônio me pegou e folheou no dia em que um relâmpago causou um curto-circuito e queimou os fusíveis da casa. Todos os "monstros dos botões", como vocês dizem, pararam de funcionar.
- Puxa vida! - exclamaram em coro todos os livros.
Antônio não ouve nada de toda essa conversa porque a linguagem dos livros é silenciosa. Só percebe atrás de si um leve barulho das páginas, logo encoberto pela musiquinha eletrônica do computador.
Enquanto ele joga, os livros discutem e combinam um meio de derrotar seus rivais. Mistérios da Eletricidade explica ao Alpinista Principiante:
- Deve haver, na parede, uma caixa grande para onde vão todos os fios elétricos da casa. Se conseguirmos descer até lá, podemos cortar a corrente elétrica e nossos inimigos serão vencidos.
Os dois cúmplices escorregam da estante e deslizam até a parede. Diante deles, a televisão continua a movimentar seus personagens, sem saber o que está acontecendo.
Eles olham para cima, a caixa está tão no alto!
- Esperem! - grita o gordo Dicionário Ilustrado.
E oferece sua grossa lombada para ajudá-los a subir.
- Vamos lá - diz o Alpinista Principiante.
E ele se amarra, se agarra e vai subindo lentamente, bem devagar, até a caixa.
Os outros prendem a respiração.
- E agora, o que é que eu faço? - pergunta ele a Mistérios da Eletricidade. - Ande logo, minhas páginas estão escorregando!
- Abra a caixa e você vai ver, na parte de baixo, um botão vermelho. Aperte esse botão.
- Oba! Consegui! - berra o Alpinista Principiante.
- Viva! - gritam os outros livros. - Nós ganhamos!
Diante deles, o primeiro "monstro dos botões" fica cinzento e silencioso. No quarto de Antônio a tela do computador de repente se apaga e a musiquinha irritante pára na mesma hora.
Que silêncio assustador!
Antônio aperta nervoso alguns botões aqui e ali. Mas não consegue fazer nada. Mexe no interruptor do abajur de sua mesa.
- Pronto, que droga, acabou a luz! Não tem jeito. Hoje mamãe só chega às seis horas e papai, então, nem sei a que horas vem.
O menino se levanta e anda de um lado para outro. O que vai fazer agora?
- Olhe para nós, olhe para nós - chamam os livros.
- Venha nos abrir, venha nos abrir - pedem suas páginas ...
O olhar de Antônio passeia pelo quarto ... e pára nos livros.
- Puxa, meus livros - espanta-se - tinha até me esquecido deles! Olha aqui o Robin Hood que vovô me deu no Natal! E o Livro da Selva que ganhei de mamãe quando fiquei doente. E os Contos de Fadas, O Bom Diabinho, Tom Sawyer, Aladim e a Lâmpada Maravilhosa, As Férias do Pequeno Nicolau ... Nossa, nem sabia que tinha tantos! Vou dar uma espiada neles. - Abre a janela e o quarto fica claro.
Os livros estão sempre prontos, querendo divertir e alegrar.
Com sua voz suave Contos de Fadas lembra a Antônio todas as lindas histórias que ele costumava ouvir quando era pequeno.
O Livro da Selva leva-o junto com Mowgli para o meio da floresta, onde ele encontra o urso Balu, a pantera Baguera e o tigre Shere Khan.
Robinson Crusoé e seu amigo Sexta-Feira são seus companheiros de incríveis aventuras na ilha desert.
Todos os outros livros querem contar alguma coisa a Antônio.
A tarde passa como se fosse um sonho. Antônio está gostando tanto de ler, que nem vê os três culpados voltarem devagarinho, na ponta das páginas, para a prateleira.
* in "Histórias para devorar" - Ed. Salamandra
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